Como Desenvolver o Pensamento Criativo para Resolver Problemas
Recentemente li um livro muito interessante chamado Creativity: a short and cheerful guide, escrito pelo ator John Cleese, que integrou o grupo Monty Python e atuou em filmes como Harry Potter e 007.
Compartilho aqui algumas reflexões que podem te ajudar a desenvolver esse tipo de pensamento, cada vez mais importante nos tempos em que a Inteligência Artificial absorve cada vez mais tarefas lógicas e torna mais importante e estratégico ser criativo.
Pensamento lógico + Pensamento criativo
O primeiro marco dessa leitura é que a criatividade tem um processo, ou processos que precisam ser respeitados, e que esse processo pode ser aprendido e incorporado. Da mesma forma que aprendemos a pensar de uma forma lógica e analítica para resolver problemas estruturados, também podemos pensar de outra forma para resolver os problemas que exigem insight, criatividade e sabedoria.
No pensamento lógico, nosso cérebro funciona rápido: descobrimos soluções, pesamos prós e contras, construímos argumentos e resolvemos problemas. É um pensamento consciente e intencional.
Mas nós temos outro processo, um pouco mais fora de nosso controle. É um pensamento mais lento, menos direcionado e estruturado, mais lúdico, mais livre. Apesar de parecer menos inteligente que o raciocínio lógico, os modos mentais mais pacientes e menos deliberados são muito eficazes para entender situações complexas, pouco claras ou mal definidas: os problemas que exigem insight e criatividade.
Quando não temos certeza do que precisa ser considerado, ou até mesmo de qual pergunta formular, precisamos recorrer ao nosso raciocínio lento, queestá associado ao que chamamos de criatividade ou de sabedoria.
O inconsciente
Cleese faz referências ao inconsciente. Não no sentido Freudiano, mas apenas em contraste ao nosso pensamento consciente deliberado. Temos um pensamento que opera em segundo plano sem esforços deliberados nossos. E podemos aproveitar essa potência cerebral.
É o que permite executar a maior parte das tarefas da vida sem exigir nossa concentração. A mente às vezes produz exatamente a palavra que você precisa, sem você estar pensando conscientemente nela. Muitas atividades exigentes, como tocar piano, fazer um arremesso de três pontos no basquete, sacar onde você quer no tênis, requerem habilidades aprendidas, mas as fazemos sem pensar conscientemente.
Mas, o problema dessa forma de funcionar é que ela não tem linguagem. E nós estruturamos todo o nosso pensamento lógico, até o matemático, em linguagem. Daí a dificuldade de manejar esse raciocínio lento inconsciente. Ele mostra imagens, provoca sentimentos, sem que você saiba de imediato o que ele quer dizer.
Exercitando a mente criativa
Primeiramente, se não há expertise ou entendimento do que se faz, dificilmente haverá a criatividade. Como bem aponta Cleese:
“A criatividade só floresce porque praticamos, praticamos e praticamos até internalizar a habilidade. No esporte, golfistas praticam a tacada, tenistas o backhand, jogadores de críquete a defesa, até que essas habilidades virem algo automático.”
Em segundo lugar, para a criatividade operar, precisamos estar imersos na atividade, num estado em que quase não pensamos deliberadamente:
“Os melhores jogadores de basquete dizem ‘Pare de pensar!’ a um companheiro de time que está num dia ruim, porque o pensamento consciente o atrapalha. No teatro, no momento em que você precisa pensar no próximo texto, há menos energia para a atuação”.
Sua mente deve ficar livre para vagar. Você pode começar com um esboço ou um pensamento, e seu inconsciente continuará trabalhando, até que o problema será resolvido. Enquanto você não estava “prestando atenção”.
Cleese também cita em seu livro uma pesquisa do psicólogo americano Donald McKinnon, em que ele observou a diferença entre pessoas com resultados criativos e não-criativos. E ele observou dois fatores-chave:
Os criativos sabiam brincar.
Os criativos sempre adiavam as decisões o máximo que podiam.
Reaprendendo a brincar
Esse brincar, apontado por McKinnon, quer dizer a habilidade de ficar imerso prazerosamente num desafio. Isso quer dizer ser genuinamente curioso por ele e pelo próprio prazer de de explorar. Tal como crianças pequenas brincando, tão concentradas que nem se distraem. Explorando, explorando… sem saber aonde vão e sem se importar com isso, livres de preocupações. Focadas na brincadeira e livres de “distrações”.
A maioria dos adultos acha difícil ser lúdico, sem dúvida, por causa das suas responsabilidades. No entanto, adultos criativos não esqueceram como brincar e conseguem “entrar de cabeça” nesse modo de funcionamento.
Tomando decisões na hora certa
Quando você tem uma decisão a tomar, o prazo deve estar muito claro. E, uma vez que esse prazo está definido, administrar a pressão e, paralelamente, usar o tempo disponível para isso. Será que resolver antes do prazo é sinal de produtividade?
Ao respeitar a necessidade do prazo, mas sem se antecipar demais, você:
pode obter novas informações e aprendizados.
pode reinterpretar o problema.
pode encontrar uma melhor forma de resolver o problema.
Observe que não estou falando aqui de valorizar a indecisão ou a lentidão. O que estou falando é da habilidade e da capacidade de tolerar a sensação de desconforto quando algo ainda está indefinido, quando uma decisão importante fica em aberto.
Muitas vezes antecipamos decisões sem necessidade por conta do nosso desconforto. E achamos bom, pois pensamos que estamos sendo eficientes e decididos, quando na verdade podemos ter bem mais retrabalho ou bem menos resultados porque não utilizamos o tempo disponível que tínhamos para chegar numa melhor solução. Experimente dormir com o problema por um ou mais dias para ver se sua capacidade de criar soluções não melhora.
O problema das interrupções
O maior inimigo da criatividade é a interrupção, pois sua mente perde o foco, que demora para retomar ao estado em que estava antes da parada indesejada. Você não consegue simplesmente retomar ao ponto em que parou. Pesquisas apontam que você pode levar até oito minutos para retornar ao seu estado anterior.
E essas interrupções acontecem como?
Elas podem ser externas, como notificações, pessoas que chegam até você, telefones e interfones tocando. Ou podem ser internas: preocupações, lembranças, sensação de pressa e tempo acabando.
Ou ainda, como lembra Cleese: “Talvez a maior interrupção vinda de dentro seja preocupar-se em cometer um erro. Isso pode paralisar você. (Mas), “quando você está sendo criativo, não existe erro. Você não tem como saber se está no caminho errado até percorrê-lo. Você deve explorar, sem saber para onde vai. Se já sabemos o que vamos fazer quando investigamos algo, então não estamos explorando!”
Protegendo-se das interrupções
Para nos blindarmos das interrupções externas, precisamos delimitar tempo e espaço. Avisar e combinar com as pessoas é fundamental. Buscar um ambiente só para você também. E você deve criar limites de tempo: uma agenda específica para essa imersão lúdica, levando muito a sério esse tempo investido. A definição do período depende do tamanho e da complexidade do problema. E do restante da sua agenda. Mas algo entre uma e duas horas parece ser razoável para começar essa prática.
“A mente precisa ter a oportunidade de descansar e liberar suas amarras, para poder formar conexões inéditas, muitas vezes tomando um café em silêncio.”
Já com relação às interrupções internas, que vêm da nossa própria mente, precisamos desenvolver técnicas para o controle dos pensamentos, tal como a meditação. Uma técnica que Cleese usa para lidar com isso é anotar esses pensamentos e voltar a focar no problema que escolheu para pensar.
E esse “foco” no problema é deixar sua mente vagar pensando nele, mas não demais a ponto de fugir da questão e entrar em outras coisas! Um recurso é escrever e deixar diante de você qual o problema que está sendo analisado.
Pensamentos finais
Diferentemente dos textos que costumo escrever, fica algo em aberto nesse aqui. Eu trouxe pontos importantes que podem fazer nossas mentes funcionarem de forma criativa, mas não um passo a passo explícito.
Essa é uma prática deliberada, que pode ser adotada de forma consciente, construindo os seus próprios caminhos e avaliando resultados. As recomendações sobre interrupções, por exemplo, parecem muito pessoais. E talvez devam ser. Isso quer dizer que o autoconhecimento é essencial para a criatividade, pois tem um papel fundamental na identificação e administração de interrupções externas.
As questões-chave para mim são:
Entender que temos dois modos de funcionar: um rápido e lógico, analítico e outro lento e “embaralhado”, visceral.
O nosso raciocínio criativo funciona em segundo plano (dormindo, tomando banho, escutando música, relaxando…).
Criatividade exige expertise e imersão, foco.
Precisamos nos deixar experimentar, explorar (“brincar”).
Devemos usar o tempo disponível, mantendo o foco nos prazos, para aproveitar essa potência do pensamento inconsciente.
Temos interrupções externas e internas: para as externas, as “blindagens” são mais simples. Para as internas, precisamos de autoconhecimento para entender como lidar melhor com elas.
Tente fazer um experimento nessa semana. Reserve em sua agenda blocos de trabalho focado para os problemas que exigem insight e avalie as diferenças de rendimento.
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