Sinais do Futuro #13: O que 443 Milhões de Horas de Dados Comportamentais Revelam sobre o Futuro do Trabalho
A narrativa dominante sobre IA e trabalho é sedutora: a tecnologia assume tarefas repetitivas, os times fazem mais com menos esforço. Mas os dados comportamentais mostram coisas diferentes.
O relatório 2026 State of the Workplace, publicado pelo ActivTrak Productivity Lab, analisou mais de 443 milhões de horas de atividade profissional em 1.111 organizações e 163.638 colaboradores ao longo de três anos (2023–2025). É um dos estudos mais abrangentes e objetivos sobre padrões reais de produtividade disponíveis hoje. E suas conclusões desafiam algumas preconcepções sobre IA e formatos de trabalho.
A IA está ampliando o trabalho e a produtividade, mas está reduzindo o foco das pessoas.
Entre os colaboradores estudados antes e depois da adoção de IA, nenhuma categoria de atividade apresentou redução. E-mails aumentaram 104%, chat e mensagens 145%, ferramentas de gestão 95%. A IA está funcionando como uma camada adicional de produtividade e não como substituta do trabalho existente. A jornada de trabalho encurtou 2% (de 8h53 para 8h44). Mas as horas produtivas cresceram 5%, chegando a 6h36 diárias. A jornada está mais curta e mais densa. Os colaboradores começam mais cedo (7h48 contra 8h02). Fazem mais, em menos tempo. Mas a que custo?
Enquanto a produtividade cresce, as condições que a sustentam estão se deteriorando. O trabalho focado, aquela parcela do tempo de trabalho gasta em atividades concentradas e ininterruptas, caiu para 60%, o menor nível em três anos. A sessão média de foco dura apenas 13 minutos e 7 segundos (queda de 9%). O tempo de colaboração digital cresceu 34%. Multitasking subiu 12%. Os ganhos de produtividade estão sendo obtidos ao custo de fragmentação e perda de profundidade. Por quanto tempo é possível sustentar mais “produção” com menos foco? E o que é gerado com essa “produção”?
Como usar a IA da melhor forma
Oitenta por cento dos colaboradores já usam ferramentas de IA e a média organizacional é de 7 ferramentas de IA (contra apenas 2 em 2023), com 83% das organizações usando 6 ou mais ferramentas. A adoção é universal e irreversível.
Mas o relatório identifica um dado importante: existe um ponto ótimo de uso (nem excessivo, nem insuficiente). Colaboradores que dedicam entre 7% e 10% do tempo total de trabalho a ferramentas de IA apresentam a maior taxa de produtividade (95%), superior tanto a quem usa menos quanto a quem usa mais. E apenas 3% dos usuários estão nessa faixa. A maioria (57%) gasta menos de 1% do tempo em ferramentas de IA. As organizações têm adotado IA, mas ainda não conseguem otimizações claras.
Formato de trabalho: presencial, remoto ou híbrido?
O relatório mostra que nenhum modelo de trabalho tem vantagens ou desvantagens absolutas em todas as métricas. Trabalhadores remotos são mais produtivos em horas brutas (7h01 diárias). Presenciais têm maior eficiência de foco (64%) e sessões produtivas mais longas (41 min). Híbridos têm a jornada mais longa (9h45), mas os menores índices de produtividade e foco.
Trabalhadores exclusivamente presenciais apresentam a maior taxa de sobrecarga: 32%, ou 2,5 vezes mais que qualquer outro grupo. Um dado que organizações que têm adotado políticas rígidas de retorno ao escritório precisam considerar.
O que isso significa para a liderança em 2026
O desafio da implementação da IA já passou. Agora o foco é a aplicação de forma sistemática e disciplinada. Quais colaboradores usam quais ferramentas, com qual intensidade, e com qual efeito?
A IA pode contribuir para a redução do burnout, mas pode gerar risco de desengajamento. A capacidade liberada precisa ser intencionalmente redirecionada para atividades interessantes, estimulantes e enriquecedoras.
A gestão do foco não depende somente das equipes. O modelo de gestão, formatos de trabalho e aspectos culturais da empresa contribuem de forma decisiva para a quantidade de trabalho focado desempenhado pelas equipes.
Como a sua organização está lidando com a implementação da IA?
Estratégia exige antecipação, análise crítica e leitura de sinais discretos. Para aprofundar essas reflexões, acesse o blog da Delta Consulting ou conecte-se comigo no LinkedIn.



