Sinais do Futuro #17 - Terras Raras no Brasil
As reservas globais de terras raras passam de 100 milhões de toneladas, sendo 44 milhões na China e 21 milhões no Brasil. O dado coloca o Brasil em condição de potência estratégica, ainda mais por se tratar de uma nação sem alinhamento geopolítico automático com China ou Estados Unidos. Apesar disso, o país ainda explora pouco essas reservas e tem muito campo para transformar esse potencial em capacidade industrial, poder geopolítico e presença estratégica em cadeias industriais de alta tecnologia.
Os projetos mais avançados estão concentrados em Goiás e Minas Gerais, com frentes relevantes também na Bahia e em Rondônia. Em 2025, também foram identificadas 39 novas ocorrências ricas em terras raras e urânio na borda oriental da Bacia do Parnaíba, no leste do Piauí, em concentrações consideradas muito elevadas para o padrão internacional.
Na escala sul-americana, o Brasil desponta com folga como principal vetor regional, enquanto o Chile também acelera projetos próprios. O governo brasileiro já fala abertamente em construir uma cadeia integrada com Mercosul e Europa para agregar valor aos minerais estratégicos. Isso sugere que a América do Sul pode começar a sair do papel de fornecedora de matéria-prima e tentar ocupar posições mais importantes na indústria da transição energética.
As terras raras são insumos centrais para tecnologias avançadas, como ímãs permanentes usados em veículos elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos, radares, semicondutores e equipamentos de defesa. Quando a China endureceu controles de exportação, montadoras e fornecedores industriais no Ocidente passaram a alertar para risco de interrupção de produção, enquanto Europa e Estados Unidos reforçaram publicamente a necessidade de reduzir dependência externa. Isso indica que terras raras estão começando a ocupar o mesmo espaço que petróleo, chips e dados ocupam no debate contemporâneo.
É justamente aí que aparece a pergunta decisiva: quem sabe, de fato, extrair e refinar? O conhecimento mais valioso está na separação química, no refino e na fabricação de ligas e magnetos, e essa etapa continua fortemente concentrada na China, que responde por mais de 90% do processamento global e dos ímãs de terras raras. Fora dela, a cadeia vem sendo construída de forma fragmentada, com plantas e iniciativas na França, no Reino Unido, na Noruega e nos Estados Unidos.
O caso brasileiro resume bem essa dificuldade. Embora tenha cerca de 21 milhões de toneladas em reservas e apareça entre os líderes globais, o país produziu apenas 2 mil toneladas em 2025, algo como 0,5% da produção mundial. O projeto mais concreto hoje é Serra Verde, em Minaçu, Goiás, que iniciou produção comercial em 2024 e é tratado como fornecedor estratégico de terras raras pesadas fora da China, com meta de atingir cerca de 6,4 mil toneladas anuais até 2027 e acordos de fornecimento com compradores ocidentais. Ou seja, o Brasil ainda está começando a entrar no jogo, e o grau de incerteza sobre o papel que teremos nessa cadeia segue elevado.
Apesar de incipiente, a disputa já é visível. Os Estados Unidos passaram a financiar projetos, discutir processamento de minerais críticos em solo brasileiro e apoiar offtakes de longo prazo; a Alemanha explicitou interesse em tecnologia e cooperação para ampliar a capacidade brasileira, e a própria Serra Verde reduziu o prazo de contratos originalmente fechados com compradores chineses para ganhar flexibilidade e atender a demanda ocidental. Ao mesmo tempo, Pequim ampliou controles sobre elementos, equipamentos e tecnologia do setor. O Brasil, portanto, está diante de uma pressão crescente para escolher como quer se inserir nessa disputa, e tem nas mãos um instrumento de barganha de peso.
O discurso oficial brasileiro aponta para o esforço de reduzir o padrão histórico de exportar volume e importar as etapas mais intensivas em tecnologia e processamento. O Ministério de Minas e Energia afirma que o objetivo é ampliar o processamento no país, agregar valor e reduzir a vulnerabilidade externa, enquanto BNDES e Finep selecionaram 56 planos de negócios em minerais estratégicos, formando um pipeline de R$ 45,8 bilhões, além de um fundo voltado a mobilizar mais de R$ 1 bilhão para o setor.
Ainda assim, terras raras são um setor tecnicamente complexo, intensivo em capital, sensível a preço e historicamente marcado por passivos ambientais quando mal-conduzido. Mesmo no Ocidente, vários projetos só avançam com crédito público, garantias de preço mínimo e apoio estatal, porque o risco é alto e a competição chinesa segue muito forte.
Dessa forma, apesar do caráter incipiente e do grande número de incertezas, é difícil encontrar agenda que combine ao mesmo tempo mineração, indústria, energia, defesa, tecnologia e reposicionamento internacional, como a de terras raras. O futuro pode apontar para uma cadeia industrial brasileira mais robusta e mais sofisticada do que a atual, e as variáveis necessárias para isso estão postas: capacidade de refino, articulação geopolítica, mobilização de capital, qualidade ambiental, organização territorial. Para isso se consolidar, o desfecho depende de escolhas que ainda não foram feitas, em um horizonte que parece curto diante da velocidade da disputa global.
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