Sinais do Futuro #18 – O novo antigo poder da leitura
Como a leitura concentrada pode ser uma competência ainda mais importante num mundo acelerado e tecnológico.
As IAs de LLM que usamos todos os dias (Claude, Gemini, ChatGPT...) produzem muito material a um custo cognitivo muito baixo. E não existe como saber se um prompt foi bom antes de saber o que essa IA retorna para você. A avaliação é sempre a posteriori: como o modelo é uma caixa-preta, sua qualidade só se revela verdadeiramente com a leitura e análise do que foi produzido.
Agora, some a isso três informações:
· O achado de um estudo da Microsoft Research com a Carnegie Mellon, de 2025, com 319 trabalhadores do conhecimento, que teve como resultado a identificação que eles empregaram menos esforço cognitivo, justamente nas atividades ligadas ao pensamento crítico, quando usam IA generativa. Mencionaram uma espécie de “atrofia cognitiva” nas pessoas pesquisadas.
· Nicholas Carr, em The Shallows (em 2010!), argumentou que grande parte dos conteúdos que circulam amplamente na internet nos treina justamente contra a profundidade.
· Cal Newport, em Trabalho Focado (de 2016), já havia trazido o insight de que a atenção sustentada seria um recurso escasso e valioso na economia do conhecimento.
E esses dois últimos autores não tinham em suas obras nenhum tipo de previsão sobre como nos relacionaríamos com as ferramentas de IA!
Desse encontro de informações vem um sinal interessante que eu gostaria de explorar: para lidar bem com o que a IA produz para nós, precisamos desenvolver uma “musculatura cognitiva” da atenção. E esse treinamento de atenção mental pode ser feito por meio da leitura. Num mundo em que o texto pode ser infinito e obtido com custo muito baixo, a vantagem profissional estará com quem lê bem: com atenção, capacidade de concentração continuada, visão crítica e de “entrelinhas”.
E eu vejo isso como algo extremamente desafiador, pois essas ferramentas banalizaram a produção de texto aparentemente fluente, o que exige ainda mais atenção para identificar consistência. O desafio do trabalho intelectual e criativo pode estar saindo da produção para a análise de conteúdo.
Isso pode se desdobrar de uma forma que a intensificação e desenvolvimento da IA eleva o prêmio sobre essa capacidade de discernimento: quem tem apetite e o fôlego para ler com atenção pode se posicionar de forma mais competitiva. E a ameaça de atrofia possivelmente será muito maior do que no momento em que vivemos. Agentes de IA podem resumir, narrar e pré-digerir quase toda a informação com que precisamos lidar.
A leitura atenta, nesse sentido, precisa ser praticada intencionalmente, tal como precisamos ir para a academia ou correr na rua porque a tecnologia dominou os exercícios físicos que a natureza nos impunha. Precisamos disso para cuidar do nosso corpo e possivelmente precisaremos ainda mais da leitura para cuidar da nossa mente.
A capacidade de ler com atenção, ceticismo e “fôlego” dificilmente ficará menos valiosa na próxima década. O que você acha disso? Faz sentido? Esse texto é um pensamento compartilhado em construção. Me responde aqui ou de forma privada, que eu ficarei muito grato! (esse não é um fechamento de texto com uma chamada sem intenção, é um convite e um chamamento de verdade!)
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